Surrender
A cabeça pende sobre o peito. O desânimo invade-me o coração e olho para as cicatrizes nos meus braços. São antigas, estendendo-se desde o pulso quase até ao interior do cotovelo, reminiscências do terminar de tempos mais prazenteiros. Há muito tempo que não sei o que é estar tão desgostosa. Não… Há muito tempo que não sei o que é sentir. Apenas sei o que é desânimo, derrota e cansaço. Sento-me à janela e olho para os flocos de neve que caem devagar como se tentassem quebrar fios invisíveis que os prendem aos céus. Pergunto-me - como o faço todas as vezes - quantas vezes já estive aqui desde que ela me deixou. Mas não sei e creio que nunca saberei. A única coisa que realmente sei é que este foi o lugar onde a vi pela primeira vez, fria e triste como uma manhã de Natal. Abro as portadas da janela e lanço os braços aos cristais que se precipitam sobre a terra, mesclando-se com o manto branco que cobre tudo e sinto-me triste e só... Diz-me, porque não olhas para mim? Sei que o amas, mas o que faz ele por ti, para além de te fazer chorar? Sempre estive aqui para ti e sempre estarei, mas eu sei que ele estará no teu coração para sempre, faça eu o que fizer. Por vezes pergunto-me se sabes que fazes a mim o mesmo que ele te faz a ti. Pergunto-me se percebes que também fazes uma pessoa chorar, e se ele sabe que, quando choras, o meu coração se parte em mil pedaços. Quero que ele te veja, que tu pares de chorar porém sei que, se isso acontecer, eu ficarei ferido para sempre e que nós nunca teremos mais do que a amizade que eu tanto valorizo mas que acho que é tão pouco para o que eu sinto. Por isso, deixo que tu chores, coloco o meu casaco nos teus ombros, e escondo as minhas lágrimas. Se esta é a única maneira de te ter ao meu lado, será a maneira que te terei.
As memórias daquele tempo, daquela altura em que todo o mundo parecia ser o nosso jardim, assaltam-me como pedaços perdidos de sonhos há muito deixados para trás. Recordo o teu sorriso e sei que é isso que me mata dia após dia. Recordo a tua voz e pergunto-me se não será isso que me deixa insana. Recordo, mais que tudo, o toque dos teus lábios sobre os meus.
As lágrimas correm, caem e banham as marcas esbranquiçadas que vitimam os meus braços. Um toque saudoso de quando as tuas lágrimas se uniam com as minhas, enquanto chorávamos de faces juntas surge na minha mente. Lembro, quando tu, com as tuas mãos pálidas pegavas no meu rosto e beijavas os traços que marcavam a minha cara.
Porém hoje não estás aqui, como há muito não estás. E, com todo o meu ser, sei que nunca mais estarás.
[Love me... Hate me... Just know who I am...]

"Tens de parar com isso"
As vozes ecoam na minha mente, as vozes de todos os que se preocupam comigo, de todos que estão cansados de me ver aqui sempre que posso, todos os que querem que eu a esqueça. Mas como? Como esquecer aquela que me encontrou adormecido e me despertou, não com um beijo, mas com o toque frio das duas mãos nas minhas.
Levanto-me devagar, deixo a janela aberta e deito-me na cama. Cerro os olhos lentamente, deixando-me ser envolvido pelo frio. Sei agora, que não me voltarei a levantar. Sei, agora, que não voltarei a abrir estes olhos. Sei agora, que é hoje que voltarei a vê-la.
[Yuki, Snow, Schnee, Neige, Neve]
Éramos os dois jovens e ingénuos e acreditávamos que as coisas poderiam ser assim para sempre. Mas um dia eu esqueci-me que precisava dele e uma luz entrou na minha vida expulsando-o. Era uma luz intensa, porém efémera e rapidamente se apagou e eu voltei para a minha semi-escuridão. Mas uma sombra tinha desaparecido e eu soube que era ele, a pessoa mais importante na minha vida. Fiz de tudo para o recuperar, no entanto, nesse dia, perdi-o para sempre.

Fugindo na cauda de cometas.
Mas eu fingi que não a via.
Quando conheci a poesia,
Ela chamou-me para brincar.
Fazer cócegas no sol e criar ondas no mar.
Mas eu fingi que não queria.
Quando brinquei com a poesia,
Ela mostrou-me o mundo e as constelações.
Ensinou-me a esconder as emoções.
E eu fingi que não sabia.
Quando me despedi da poesia,
Ela chorou e com todo o coração jurou
Que não queria me deixar.
E eu fingi que não doia.
Eu queria ser poeta.
Ser dor, ser alegria.
Mas a poesia que em mim havia
Fugiu enquanto eu crescia.
[. . .]
